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Arte da JAM no MAM Arte da JAM no MAM

Coordenador do Live Art da JAM explica as imagens do projeto! 

No final de 2009, Solange Farkas, então diretora do Museu de Arte Moderna da Bahia, sugeriu o nome de Flávio Lopes para assumir o projeto do Live Act da JAM no MAM.  A ideia era elaborar uma proposta que pusesse em curso a intenção de aproximar a jam sessiom e o MAM. O nome de Flávio foi logo festejado por Cacilda Povoas e Ivan Huol, que já conheciam o seu trabalho e desejavam criar um novo diálogo entre as instâncias da música e das artes visuais. Hoje quem vai à JAM sempre percebe/recebe as imagens criadas pela equipe coordenada por Flávio, em sessões onde a improvisação, a intuição e a música desempenham um papel fundamental em todo o processo. Nessa entrevista, Flávio explica melhor o trabalho desenvolvido pelo Live Act da JAM, além de falar sobre o lançamento do primeiro DVD do projeto!

A ideia original do Live Act mudou muito até o formato atual?
Um pouco. Na verdade, o Live é uma especulação. Nós sabíamos o que não queríamos, e isso nos estimulou a fazer algumas experiências. A ideia original era tentar promover um encontro entre o ato de improvisar, comum às jam sessions, e a experimentação no campo das artes visuais. Esse foi nosso ponto de partida; mas, na área da experimentação, não existe uma linha de chegada, o que interessa é o processo. O Live Act é, por definição, uma idéia em construção.

Como ele funciona hoje?
O Live Act não tem um formato acabado. Enquanto obra em processo, ele funciona numa perspectiva parecida a de uma jam session, como um encontro de artistas que se reúnem para experimentar juntos, improvisar. O problema é a falta de hábito dos artistas visuais que, diferente dos músicos, em geral trabalham sozinhos. Nós estamos sempre reiterando esta convocação, mas, infelizmente, poucos artistas respondem à nossa provocação.

Qual a sua relação com a música instrumental e o Jazz?

O fato de existirem pouquíssimos espaços como o da JAM no MAM, destinados à difusão da música instrumental, faz com que a maioria de nós tenha pouca oportunidade de travar um contato mais estreito com este gênero. Esta lacuna só não é maior em função do caráter eclético de nossa formação musical. A condição de povo mestiço talvez tenha nos ensinado a utilizar a antropofagia como estratégia de enfrentamento à postura colonialista da indústria fonográfica. Mesmo considerando o enorme desserviço prestado pelas imposições desse mercado, é fácil perceber na música popular brasileira exemplos do encontro de nossa musicalidade com a tradição instrumental europeia e afroamericana. Portanto, ainda que de forma enviesada, eu arriscaria dizer que nós, não só nos apropriamos um pouco destes gêneros, como estamos levando à frente parte destas tradições.

Como você foi integrar a equipe da JAM?

Já faz algum tempo que passei a utilizar a plataforma do vídeo em meu processo criativo. Neste período, produzi, junto com outros realizadores, alguns eventos que se notabilizaram pela característica experimental. Esta trajetória, talvez tenha me credenciado para levar a cabo esta empreitada. O interessante é que, depois de algum tempo na JAM, você vai se familiarizando com a dinâmica interna do evento e percebe as afinidades que tem com sua proposta. Quando você trabalha com pessoas que gostam do que fazem, as coisas se tornam fáceis; é um prazer poder fazer parte de um projeto despojado, que não quer ser mais do que um encontro de músicos que se reúnem para tocar, interagir com o público e se divertir. Esta característica, essencialmente lúdica, torna a JAM um evento diferenciado.
 
Como é feita a seleção de imagens e vídeos que o público vê durante a JAM?
As imagens que exibimos têm uma estrutura narrativa específica. A unidade básica de sua sintaxe é o loop. Em linhas gerais, denominamos de loop o fragmento de uma imagem, que é exibido num modo de repetição. Este fragmento é misturado a outros fragmentos, numa composição dinâmica, feita ao vivo. Ou seja, o que fazemos, previamente, é construir um grande banco de imagens. Durante a jam session agregamos  a este processo de composição as imagens das performances dos músicos, captadas e mixadas, também em tempo real. Nossa expectativa é oferecer ao público mais uma camada de leitura para o espetáculo.

De que maneira elas se relacionam com as músicas que são interpretadas ao vivo? 
Atualmente, no campo de produção da imagem, visão e audição são sentidos mais que complementares; eles se interpenetram. Tudo começou lá nos primórdios do cinema, com a música ao vivo acompanhando a exibição dos filmes mudos. Neste caso, resguardadas as diferenças, ainda que fundamentais, a música entrava como um coadjuvante; o protagonismo era sempre do gesto, da imagem. No Live Act o exercício é outro; há uma inversão. A base da experiência é a música e a imagem está ali como mais uma possibilidade de fruição da atmosfera simbólica produzida por cada tema musical. Este tipo de agenciamento não é novidade, ele ganhou relevo a partir da segunda metade do século passado, com o aparecimento dos primeiros filmes promocionais realizados por artistas da música pop. Estes “Promos” provocaram o aparecimento das MTVs, dando origem a um dos mais criativos gêneros produzidos para a televisão, o videoclipe. Muito das estratégias visuais utilizadas no Live Act é tributária desta estética.

Você também improvisa muito durante a JAM?
Ainda que alguns elementos se repitam, cada encontro é único, uma vez que a composição das imagens são sempre reconfiguradas em função do que acontece a cada encontro. Existe uma sinergia entre a música, o público e nosso trabalho. Bom, pelo menos esta é nossa expectativa. Em ações ao vivo, lidamos o tempo todo com o imponderável. Nem sempre as coisas dão certo, mas esta é a mística do processo, e, em alguma medida, o público entende os riscos que estão em jogo neste tipo de estratégia e festeja a ousadia do artista que se expõe abertamente, sem script.
 
De onde vem a inspiração para a seleção dessas imagens?
A inspiração é um assunto controverso em nosso meio. Alguns artistas se enredam em questões mais internas ao próprio campo das artes. Eu trabalho numa perspectiva mais ampla. Aposto minhas fichas na ideia de que a inspiração tem a ver com a capacidade do artista de entender as várias forças que estão tencionando seu tempo. A inspiração decorre, portanto, da capacidade de ressignificar algumas experiências cotidianas, ampliando o sentido de nosso estar no mundo. A vida cotidiana é a matéria prima do meu trabalho. Nem sempre isto é fácil, pois vivemos num tempo em que o mercado se transformou na medida de todas as coisas.

Você trabalha sozinho?
Não, somos uma equipe. O grande barato de se trabalhar em equipe é a possibilidade de interação; a interação potencializa qualquer processo. No final, temos um todo que é sempre maior que a soma das partes.
 
Qual tem sido o feedback do público em relação ao trabalho do Live Act?

De modo geral o público demonstra interesse pelas projeções. Às vezes alguém procura informações sobre o processo que estamos desenvolvendo ali. Mas ainda há pouco conhecimento sobre o que acontece por trás da criação de uma imagem. Ainda bem que, em função das novas tecnologias, estas plataformas estão se popularizando. Os espaços de circulação da produção simbólica tem um papel estratégico nas economias pós-industriais. A sociedade precisa se apropriar destas novas esferas do espaço público.

Existe algum espaço para interação com o público durante as sessões?
De maneira geral, as pessoas tem dificuldades para entender a dinâmica do evento. Infelizmente estamos todos condicionados pela lógica verticalizada do Star System, (sistema da estrela), onde a postura do público é previamente definida apenas como passiva. Tanto a JAM quanto o live são espaços abertos à interação. Evidentemente existem critérios para balizar estas interações, mas o espaço está aberto a proposições.
 
Como está sendo a gravação para o primeiro DVD da JAM no MAM?

Uma loucura. Estamos tentando documentar um pouco deste evento complexo que é a JAM. Isto não é nada fácil, uma vez que são inúmeras apresentações. Uma diferente da outra. É muita coisa! Isso torna o trabalho de escolha do que vai ficar de fora, por exemplo, uma tarefa angustiante.

Qual a previsão de lançamento?

Agora em Abril finda o contrato que financiou os últimos sete messes do projeto. A partir dai, temos alguns dias para prestar contas de nossas atividades. Isto que você está chamando de DVD, na verdade, é apenas um pequeno registro documental do que vem sendo construído a título de experiência estética no projeto JAM no MAM. Nossa intenção é lançar o “DVD” na primeira quinzena de abril, na última sessão desta temporada.


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